A Gaiola Dourada

| 23 abril 2018 |
A habilidade é um dom destinado a poucos. Poderes e possibilidades inimagináveis. Dez anos de escravidão destinados aos demais, aqueles que não possuem poder algum e vivem vidas normais. Uma família que resolve cumprir seus dez anos unida, mas se vê em meio a um conflito político, de poder e falta de justiça sem precedentes.

Distopia, fantasia e realidade. Séculos de uma tradição deturpada onde os poderosos tratam seus semelhantes quase como animais. Abusos e sofrimentos sem fim esperam por quem que precisa cumprir seus dias de escravo.

Vic James chegou para revigorar o gênero distópico. Depois de uma febre alavancada por algumas trilogias, muito bem escritas, vários livros repetitivos surgiram no mercado, tentando se aproveitar da febre do momento. Aparentemente, após outros gêneros assumirem os postos de mais vendidos, chega essa autora sensacional para revigorar e trazer de volta em grande estilo governos totalitários e personagens que lutam por igualdade.

Abi não queria que sua família fosse enviada para uma cidade de escravos. A vida ali consistia em trabalhos pesados, péssima alimentação, castigos, torturas frequentes e quase nenhum contato com o mundo exterior. Seus irmãos ainda eram menores, sua irmãzinha tinha apenas dez anos e não aguentaria algo assim. Dessa forma, ela consegue que seus pais e irmãos sirvam a família Jardine, uma das mais poderosas da Grã-Bretanha tanto em questão de poder, quanto politicamente.

Tudo seria perfeito, se o irmão de Abi, Luke, não fosse separado da família para ser enviado a uma cidade de escravos. Se a família Jardine não fosse tão deturpada pela sede de poder. Se o mundo não fosse dividido entre os poderosos, com poderes além da imaginação, e os demais, que haviam nascido destinados a perderem dez anos de suas vidas servindo pessoas tão vis.

Se esse é só primeiro livro da trilogia “Dons Sombrios”, minha mente sequer pode imaginar a grandiosidade dos próximos títulos. Sabemos exatamente como funciona a luta em uma distopia, quem são os lados rivais, mas, nessa narrativa, o lado mais fraco não é apenas formado de pessoas desprovidas de poder político.

Aqui é força é medida com um poder real, que ninguém que não seja da aristocracia possui. Impossível de imaginar como aqueles escravos podem se rebelar, lutar pela igualdade, quando apenas um do outro lado, sozinho, pode sobrepujar centenas ao seu alcance. Quando tão poucos do governo lutam pela igualdade e, quando mesmo esses são punidos pelos seus atos, a esperança não é um sentimento fácil de se alcançar.

Também temos capítulos narrados por dois dos filhos da família Jardine. Digamos que o “lado do mal” ou “aqueles que nós teríamos que odiar”. Apesar de não lutarem pela igualdade, apenas pelos seus próprios objetivos, ou para agradar aqueles que lhe trariam alguma vantagem, é automático não odiar personagens tão complexos e poderosos, apenas esperando para entender seus verdadeiros objetivos.

Silyen, o caçula da família Jardine, é, de longe, o personagem mais interessante de todo o livro. Ele é o Igual com mais poder que se viu em muitos anos. Apesar da pouca idade, ele já faz coisas inimagináveis. Seu carisma incita a sua volta muito mais o medo do que a paixão. Apesar de todo o poder, ele passa o livro rondando, espreitando, aguardando por algo grandioso, e tramando algo ainda maior. Impossível não se arrepiar em seus aparecimentos e tentar a cada momento desvendar suas motivações e objetivos.

Um mundo de escravos e seus mestres. Um regime aparentemente impossível de ser destruído. Poucos poderosos lutando, e sendo massacrados pelos seus iguais. Essa obra não é apenas incrível, é instigante em toda a sua concepção, nos levando também para dentro daquela gaiola, sem nenhuma chance de escapatória.

“A Gaiola Dourada” é um livro sobre liberdade, ou a falta dela. Você não é livre nos seus dias de escravo, nem antes ou depois deles. Você não é livre mesmo se tiver poderes, pois sempre terá alguém que irá destruir seus ideais, comandar sua vida e limitar suas escolhas. Um livro incrivelmente bem escrito, uma história fantástica, feita como uma gaiola, exatamente para nos prender até o último capítulo... e além.

2 comentários:

  1. Uau,essa história promete muitas emoções!

    Confesso que li poucas distopias. E realmente as tramas são sempre bem parecidas.
    E que bom que a autora tenha criado um "cenário" totalmente diferente,sem que fosse preciso mudar a essência de livros do gênero.
    Onde há fantasia,ideais e muita ação.
    Sem contar essa capa que está linda. Que pelo que nos contou,representa muito bem escravidão.

    Bela resenha! :)

    ResponderExcluir
  2. Olá Jana! Nossa não conhecia esse livro, distopia, fantasia e realidade, já fiquei mega curiosa, essa resenha me deixou bastante interessada em conferi isso tudo que foi dito aqui.
    Bjs

    ResponderExcluir